terça-feira, 25 de novembro de 2008

Breve retrospectiva histórica da contabilidade


Resumo

A escrituração e os métodos de registo contábil, bem como os conceitos que lhes estão associados, surgem e desenvolvem-se, ligados ao desenvolvimento dos negócios, desde a Antiguidade Oriental, passando pela Antiguidade Clássica, até a Idade Média, onde se consolidam. Inicialmente, os registos contábeis eram efectuados, de preferência, em material duro (tábuas de pedra ou argila) e por vezes em folhas de papiro (precursor do papel) e a linguagem de escrituração, de início ideográfica (com base em imagens) evoluiu sucessivamente para se tornar mais compreensível ao comum dos mortais.

Os principais conceitos contábeis, que faziam comparar as entradas a receitas, recursos e crédito, e as saídas a despesas, aplicações e débito, bem como os de renda, juro, resultado (positivo, nulo ou negativo), activo, passivo, etc., foram sendo sucessivamente introduzidos. As principais técnicas de escrituração, que evoluíram para o uso do memorial e do livro-diário, com transcrição posterior para o livro-razão, e a própria mecanização do cálculo, com a ajuda dos ábacos, foram sendo aplicadas.

Após a escuridão da época medieval e com o desenvolvimento do mercantilismo, a técnica de escrituração por partidas dobradas (partida vs contrapartida, débito vs crédito) impõe-se e surge a primeira obra conhecida da literatura contábil, escrita pelo frei Luca Pacioli, na qual codifica e divulga o método das partidas dobradas. Daí a surgirem outras obras, de outros autores, e a desenvolverem-se outros conceitos contábeis e outras técnicas de registo contábil, acompanhando o progresso tecnológico, foi um passo.

Nas discussões teóricas, entretanto havidas, foi criticado o método das partidas dobradas e perspectivado a sua substituição, e mesmo a extinção da classe dos profissionais contábeis, pois, todos, nas empresas e organizações, passariam a ser contabilistas. Mas, cadê o substituto do método contábil das partidas dobradas? Conclui-se que, a existir algum problema este não se situa no método, em si, mas na sua normalização, que deve ser aprofundada e universalizada. A opinião generalizada, de momento, é que a normalização contábil deverá, cada vez mais, evoluir da normalização de carácter empírico, baseado nos consensos e costumes, que podem variar de um país para outro, para uma normalização de carácter mais científico, e mundialmente convergente, que se preocupe, cada vez mais, com o “entendimento das mutações da substância Patrimonial”, afinal, o objecto da contabilidade.

1. Introdução

Conforme cita Omotunde, Jean-Philippe, em A invenção da contabilidade pertence aos africanos, texto de 18 de Abril de 2004, in http//www.africamaat.com, investigadores acharam provas de que 37.000 anos antes de Cristo os homens já faziam cálculos numéricos. As referidas provas são inscrições num osso de babuíno (grande macaco africano) achado nas montanhas de Lebombo, entre a África do Sul e a Suazilândia, conhecido nos meios arqueológicos como o “osso de Lebombo”.

Segundo o mesmo autor (op.cit.) as inscrições encontradas num outro osso, o “osso de Ishango”, encontrado no sítio de Ishango, situado a 15 km do equador, num dos rios do Lago Eduardo ou Edward Nyanza, na fronteira entre a República Democrática do Congo e o Uganda, datadas de 20.000 anos antes de Cristo, revelam já o uso de séries e progressões aritméticas.

Da nossa parte, duvidamos que o ser humano de há 37.000 anos, ou mesmo 20.000 anos antes de Cristo, estivesse a pensar na investigação no campo da matemática, quando nem sabia, ainda, sequer, plantar couves ou semear batatas. Pensamos, sim, que a intenção desse nosso antepassado longínquo não era outra senão contar e registar o seu gado(20), para melhor controlar a sua única riqueza (Património) de então.

De facto, Marques, Vagner António, em O empirismo e a contabilidade – uma abordagem histórica, in Jornal da Contabilidade da APOTEC, Ano XXXII, nº 377, de Agosto de 2008, p. 247 a 251, cita Morgan Apud Sá (1997) para nos afirmar que “a contabilidade, ciência que surgiu da necessidade de se controlar o Património, encontra bases históricas de seu surgimento por volta de 20.000 anos atrás, no período Paleolítico Superior”.

Resta-nos poucas dúvidas de que o homem, de forma intuitiva e bastante primitiva, tentou, desde sempre, “entender o que ocorria com as coisas, para então procurar utilizá-las para melhorar o seu bem-estar”, sentindo a necessidade de memorizar, mesmo de forma rudimentar, a sua riqueza, o seu Património acumulado.

O objectivo do presente texto não é a abordagem de todo o processo evolutivo das formas de memorização ou de registo do Património, durante a existência humana. Limitar-nos-emos aos últimos 5.000 a 6.000 anos. Portanto, não nos interessará ir às fontes, conhecer e divulgar o que se passou entre os 20.000 anos e 6.000 anos atrás (pré-história). Ater-nos-emos ao período de tempo considerado como sendo o da história da humanidade, ou seja após o aparecimento da escrita.

Faremos, pois, uma pequena retrospectiva histórica da contabilidade, considerando as eras da história universal estudadas no ocidente, de cultura judaico-cristã, que maioritariamente nos influencia e nos caracteriza.

2. A contabilidade na Antiguidade(1)

2.1. A contabilidade na Mesopotâmia

É lugar comum, divulgado pelos historiadores, no mundo ocidental, os quais são tendencialmente eurocentristas(17), que a história da humanidade, e consequentemente a história da contabilidade, começa na Suméria (região de Mesopotâmia ou Crescente fértil, parte do actual Iraque), tida como berço da escrita.

As primeiras escrituras contábeis ter-se-ão localizado por volta dos 3.500 anos antes de Cristo, sendo efectuadas predominantemente em tábuas de argila e utilizando os caracteres cuneiformes (suporte das línguas da região).

Encontram-se no código de Hamurabi(2) as primeiras referências à contabilidade, relativas a registos de empréstimos de dinheiro, para efeitos de contagem dos dias e pagamento de juros.

De facto, a existência de um comércio muito intenso na sociedade mesopotâmica (a Mesopotâmia situava-se geograficamente no cruzamento de importantes rotas comerciais) terá dado origem a uma organização económica sólida, que realizava operações como empréstimos a juros, corretagem e sociedades em negócios, sendo que já eram utilizados recibos, escrituras e cartas de crédito.

Efectivamente, os sumérios e os babilónios que os sucederam, fizeram uso extensivo dos registos contábeis, o que se pode atestar pelos milhares de tábuas de escrituras encontradas pelos arqueólogos.

Por exemplo, nas tábuas da terceira dinastia de Ur(3) encontram-se já todos os elementos característicos da conta: a natureza dos objectos transaccionados, os nomes dos contratantes, as quantidades entregues e os montantes totais.

Outras tábuas indicam a situação do período precedente (saldo), os aumentos (em cima) separados das diminuições (em baixo), ou vice-versa, e o saldo do fim do período.

Uma grande tábua, com dez colunas, do reinado do rei sumeriano Amar-Sin(3), exposta no museu do Louvre, em França, recapitula os recursos e as aplicações de uma exploração agrícola, durante um ano, o que pode ser interpretado como um livro de contas com receitas e despesas, dividida em diferentes secções, comportando diversas rubricas.

Existem outros exemplos de tábuas que recapitulam os movimentos das lojas dos templos, no período de doze meses, com saldo inicial, entradas no exercício, saldo disponível total e saídas do exercício, com possibilidade de saldo positivo, nulo ou negativo.

Há quem considere que as técnicas de registo utilizadas tinham já bases sólidas, e eram idênticas às que os italianos vieram a utilizar nos finais da Idade Média, ou seja, encontram-se já aí as bases da contabilidade moderna.

2.2. A contabilidade no antigo Egipto

Segundo autores africanistas(18), mormente os de tendência afrocentrista(19), desde a fundação do Egipto (unificação do alto e baixo Egipto) pelo rei núbio Narmer, por volta dos 3.200 anos antes de Cristo, que os egípcios tiveram a necessidade de desenvolver a contabilidade, para resolver o problema da gestão da produção agrícola e do fabrico do vinho, pão e cerveja, as relações com outras nações e a gestão dos templos (Karnak, Luxor, etc.).

As técnicas utilizadas pelos egípcios tinham grandes semelhanças com as sumerianas, excepto quanto ao suporte da escrita, na medida que utilizaram folhas de papiro(4), ao invés das tábuas de argila ou outros materiais duros. A vantagem da folha de papiro é que era mais leve e maleável que a tábua de argila, no entanto era, também, mais frágil e de fácil degradação. Os mestres da escritura e do cálculo eram os denominados escribas(5).

Como exemplo de escritura contábil egípcia costuma-se apontar o papiro Boulaq 18, exposto no museu de Boulaq, em França, o qual seria a prova de que há cerca de 3.700 anos os egípcios já elaboravam contas de exploração diárias com saldo do dia anterior, proveitos por tipo de produto, gastos por natureza e por cada produto, saldo do dia.

Outros documentos, como o papiro de Abusir(21) (cerca de 2.400 anos antes de Cristo), proveniente do templo do faraó Neferirkaré(6), exposto no já citado museu do Louvre, em França, e o papiro E3226 (cerca de 1.500 anos antes de Cristo), do reinado do faraó Tutmósis III(6), são apontados como exemplos das contas egípcias faraónicas.

A técnica utilizada pelos egípcios era de primeiramente registar as operações em escrituras provisórias (espécie de memorial) e depois proceder à sua recapitulação e passagem a escritura definitiva.

A conta egípcia já continha os elementos essenciais: nome da conta, data e montante total, e tinha também uma parte de receita (entradas, recursos, créditos) distinta da parte de despesa (saídas, aplicações, débito).

A partir dos 300 anos antes de Cristo, aproximadamente, passou-se a utilizar na escrituração dos papiros a língua demótica (língua popular), em vez dos antigos hieróglifos (escrita com base em imagens). Não obstante, existem referências de que a nova linguagem de escrituração vem-se, também, revelando de difícil descodificação, mesmo pelos especialistas.

Não tão abonatórias, existem também referências de que os egípcios do período helenístico(7), para além de terem já bem assimilado os conceitos e os métodos de registo das receitas, das rendas e das despesas, também já sabiam falsificar contas, efectuando registos fictícios para encobrir situações duvidosas.

2.3. A contabilidade na Grécia antiga

Num período subsequente, os gregos dão um passo em frente, passando a utilizar técnicas contábeis bastante mais avançadas do que as utilizadas pelos mesopotâmicos e egípcios.

Dos egípcios terão aprendido a técnica bancária, nomeadamente a das transferências entre contas, o que permitia realizar transacções sem o manuseamento de dinheiro vivo.

Os templos, que contabilizavam rigorosamente as ofertas aos deuses, funcionavam como autênticos banqueiros e utilizavam já o cheque e a letra de câmbio(8) .

Os banqueiros geriam depósitos e concediam crédito. A sua contabilidade era rigorosa e já utilizavam basicamente dois livros de contabilidade, o livro-diário (ephemerides) e o livro das contas (trapedzikita grammata).

Os materiais suporte da escrituração contábil eram pedras de mármore e de calcário.

De realçar que, cerca de 300 anos antes de Cristo, já existia em Atenas uma espécie de tribunal que verificava as contas públicas, cujas decisões podiam ser sujeitas à auditoria contraditória de um colégio de revisores (espécie de segunda instância).

2.4. A contabilidade na Roma antiga

Em Roma, todo o chefe de família achava-se obrigado a anotar diariamente as operações que efectuava, primeiro num memorial ou diário, que depois transcrevia para um livro de receitas e despesas (codex accepti et expensi).

O “codex accepti et expensi” veio-se a transformar mais tarde num livro de caixa, a duas colunas: de um lado, as entradas ou recebimentos (accepti) ou seja o crédito, e de outro, as saídas ou pagamentos (expensi) ou seja o débito.

Os banqueiros romanos escrituravam um “kalendarium” com as datas das entradas e das saídas de dinheiro e dos pagamentos de juros, e mantinham um registo das contas clientes (codex rationum) por ordem alfabética.

O “codex rationum” era o principal livro contabilístico e era conservado em permanência, por ter valor de prova determinante. Fazia as vezes dos livros diário e razão da contabilidade actual.

Os materiais suporte da escrituração contábil eram de preferência os materiais duros, como a pedra, e os cálculos eram feitos em numeração romana(9). Os romanos mecanizaram o cálculo com a ajuda dos ábacos(10).

A contabilidade romana terá sido a primeira a dar uma ideia precisa do ritmo do tempo nos trabalhos contábeis: as operações quotidianas eram escrituradas no memorial e no diário (adversaria et ephemeris) e periodicamente, uma vez por mês, eram transcritas para os “codices”.

3. A contabilidade no princípio da Idade Média

Como acabamos de ver, as contabilidades dos sumérios, egípcios, gregos e romanos tinham a marca de civilizações desenvolvidas.

Entretanto, com a queda do império romano, nas mãos dos bárbaros(11), até que se consolidassem os novos países saídos do desmantelamento do referido império, houve uma regressão de séculos, até a Baixa Idade Média (séc. XII a XIV).

Subsequentemente, dar-se-ia o aparecimento da imprensa(12), que viria a revelar-se de grande importância para a revolução que se vai processar no campo da contabilidade.

4. A contabilidade do fim da Idade Média à revolução industrial

Como já foi evidenciado, o surgimento e o desenvolvimento da escrituração e dos métodos de registo contábil encontram-se estreitamente ligados ao desenvolvimento dos negócios, desde a Antiguidade Oriental(13), passando pela Antiguidade Clássica(14), vindo a culminar na Idade Média(15), onde se vem consolidar.

De facto, o denominado método das partidas dobradas acaba por se impor nas cidades-estado de economia mercantil da Itália medieval, existindo provas da existência de livros contábeis, com registos em partidas dobradas, pelo menos a partir do ano 1340, na cidade de Génova.

A primeira obra conhecida da literatura contabilística foi escrita pelo veneziano Luca Pacioli, monge franciscano, matemático, amigo de Leonardo da Vinci.

Na intitulada “Summa de Arithmetica, Geometria, Proportioni Et Proportionalita”, editada em Florença, em 1494, Pacioli integra um “Tractatus de Computis et Scripturis” (Tratado das contas e escrituração), dedicado à compilação e divulgação do referido método das partidas dobradas.

Na sequência, outras obras foram publicadas, no século XVI, em italiano, alemão, holandês, francês e inglês, e nelas vão surgindo as primeiras formulações dos conceitos contabilísticos de activo, de passivo, de lucro, etc.

5. A contabilidade após a revolução industrial

Com a revolução industrial(16) europeia, dos meados dos anos 1700, houve a necessidade de desenvolver as técnicas contábeis, de modo a adequá-las às necessidades da mecanização, das operações de manufactura fabril e da produção em massa de bens e serviços.

Entretanto, com o surgimento, nos meados do século XIX, das grandes sociedades anónimas, de capital disseminado por vários pequenos accionistas e administrados por gestores profissionais, o papel da contabilidade foi necessariamente redefinido, para se colocar cada vez mais ao serviço do público, principalmente dos accionistas e investidores em geral.

6. A contabilidade na era dos computadores

A partir dos meados do século XX, as máquinas, particularmente os computadores, passaram a executar, de forma automatizada, várias das funções da escrituração, que são fundamentais nos sistemas contabilísticos.

O uso massivo de computadores aprofundou o âmbito da escrituração e a expressão processamento de dados passou a estar frequentemente associada à escrituração contábil.

Mais recentemente, com as bases de dados, mormente as bases de dados relacionais, e com os sistemas em tempo real, proporcionados pelo desenvolvimento da telemática, e com o uso extensivo de intranets e da Internet, assiste-se a uma descentralização do registo contábil pelas diversas áreas operacionais e geográficas das organizações. Assiste-se, também, a uma integração das contabilidades financeira e de gestão, facilitada pela simplicidade de se fazer análises multidimensionais. Aparentemente, caminha-se para além das partidas dobradas.

Entretanto, críticas já antigas ao sistema das partidas dobradas reacendem-se, esperançadas de que o progresso tecnológico e a banalização da informática facilitarão a renovação desse modelo de registo contábil, que pretendem estar há muito ultrapassado.

Pelo menos desde o final dos anos 1960 começou-se a elaborar uma teoria de contabilidade com base nos acontecimentos (events theory). A base desta teoria é de que não devia ser a contabilidade a agregar os dados e a fornecer os inputs para os modelos decisionais, antes, devia fornecer informação sobre os acontecimentos económicos relevantes e permitir que fosse o próprio utilizador a gerar os seus próprios inputs para o seu próprio modelo decisional.

Os defensores desta teoria sugerem que a agregação dos dados e a mensuração feita pelos contabilistas, sintetizados nas demonstrações financeiras que elaboram, podem resultar em perda de informação relevante, não compensando os benefícios que lhe estão associados. Propõe que seja aprofundada a investigação sobre a amplitude da informação perdida, com a agregação e mensuração de toda a informação económica em unidades monetárias, e que se avance no sentido da elaboração de relatórios financeiros mais úteis com base nos acontecimentos (events approach).

Contudo, não encontramos evidências de que a teoria de contabilidade com base nos acontecimentos tenha avançado suficientemente na sua pesquisa experimental, sendo, por enquanto, ainda, uma miragem.

De facto, o modelo de contabilidade por partidas dobradas pode ser criticado ou criticável, mas ainda não tem substituto, pode ter limites, mas as suas qualidades de coerência e robustez e a sua normalização vão assegurando ainda a sua presença.

7. Conclusão

Praticamente, desde sempre, o homem teve a necessidade de contar e registar, para poder controlar o seu Património (riqueza), constituído inicialmente pelo seu gado (Do lat. pecus, donde deriva pecunia “riqueza em gado”). Usou da imaginação e, empiricamente, através de “inscrições de natureza artística em paredes de caverna e tábuas de pedra” procedeu aos primeiros registos, lançando as bases históricas da ciência contábil.

Com o surgimento da escrita e com o desenvolvimento dos negócios, o homem foi desenvolvendo formas cada vez mais aperfeiçoadas de registo do seu Património e das suas transacções comerciais, e foi elaborando conceitos que os sustentasse cientificamente. Tornou-se possível falar em história da contabilidade e em ciência contábil.

Há pouco mais de 500 anos, um monge franciscano codificou e divulgou em livro, para uso universal, o chamado método das partidas dobradas, cujos princípios, ainda hoje, são comummente aceites e utilizados. Contudo, no decorrer dos anos, não tem faltado quem, ciclicamente, o coloque em causa e até sustente o seu esgotamento, bem como o desaparecimento da própria classe de profissionais contábeis.

No entanto, vem-se concluindo da actualidade do citado método das partidas dobradas, apontando-se, sim, no sentido da melhoria da normalização contábil, para obviar aos efeitos perversos do desenvolvimento de técnicas de contabilidade criativa, utilizadas, principalmente, por grandes grupos económicos, cotados nas bolsas de valores, cada vez mais internacionalizadas, que se aproveitam das lacunas ou do pouco rigor na explicitação das regras contábeis instituídas.

Urge, pois, colher a experiência da história, principalmente da história recente, ultrapassar o tipo de normalização actualmente existente, de características empíricas, baseado em “fundamentos, princípios e normas”, provindas de consensos e costumes (por vezes tendenciosos), e avançar para um aprofundamento e convergência, cada vez maior, da normalização contábil, a nível mundial, mas que seja mais científica (não dando margem a interpretações dúbias), “preocupando-se com o entendimento das mutações da substância Patrimonial” (objecto da contabilidade).



REFERÊNCIAS:

DEGOS, Jean-Guy et LECLÈRE, Didier. Enregistrement comptable. Encyclopédie de Comptabilité, Contrôle de Gestion et Audit, sous la direction de Bernard Colasse. Economica, Paris, 2000;

MARQUES, Vagner António. O empirismo e a contabilidade – uma abordagem histórica. Jornal de Contabilidade da APOTEC, Ano XXXII, nº 377, Agosto de 2008, p. 247 a 251;

MENDES, João M. A. A profissão contábil: aspectos básicos, metodológicos e regulatórios e da crise e evolução recentes. Praia, Dezembro de 2004, no prelo;

MEYER, Philip E. Accounting and Bookkeeping. Microsoft® Encarta® Online Encyclopedia 2003, http://encarta.msn.com © 1997-2003 Microsoft Corporation. All Rights Reserved;

OMOTUNDE, Jean-Philippe. L'invention de la comptabilité reste un fait africain. http//www. africamaat.com, texto datado de 18 de Abril de 2004;

PONTES, Sérgio. Das partidas dobradas à estrutura conceptual do IASB (I). Revista da Câmara dos Técnicos Oficiais de Conta, ano IV, nº 45, Dezembro de 2003.

SORTER, George H. An “events” approach to basic accounting theory. The Accounting Review, January 1969, page 12–19, vide http://www.acis.pamplin.vt.edu/faculty/tegarden/ 5534/handouts/REA-Papers/AcctRev1969-Sorter.pdf

WIKIPEDIA, A enciclopédia livre, http://pt.wikipedia.org. Mesopotâmia: economia e sociedade. Texto sem autor identificado;




NOTAS DO TEXTO:

(1) Antiguidade: “espaço de tempo que decorre entre o início da época histórica e a queda do Império Romano do Ocidente em 476 depois de Cristo”, in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2001;


(2) código de Hamurabi: “primeira compilação de leis conhecida, da responsabilidade de Hamurabi rei da Babilónia no séc. XVIII antes de Cristo”, in http://encarta.msn.com/dictionary; “Hamurabi governou cerca de 43 anos, entre 1792-1750 antes de Cristo e o seu código de 282 leis, um dos primeiros códigos de leis escritas, foi compilado por volta de 1780 antes de Cristo”, in http://nationalgeographic.com;


(3) Ur: “uma das mais importantes cidades-estado da civilização sumeriana, na região de Mesopotâmia, no sudoeste do actual Iraque”, in http:// encarta.msn.com/dictionary; a 3ª dinastia de Ur: “decorreu entre 2100-2000 antes de Cristo”, in http://nationalgeographic.com; Amar-Sin: “3º rei da 3ª dinastia de UR, reinou entre 2046 e 2037 antes de Cristo”, in Wikipedia - la enciclopedia libre;


(4) papiro: “material preparado a partir dos caules do papiro (planta da família das ciperáceas) utilizado pelos povos da Antiguidade, especialmente pelos egípcios, para se escrever sobre ele”; “manuscrito antigo feito sobre este material”, in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2001;


(5) escriba: “pessoa encarregada de escrever os textos oficiais e litúrgicos, desempenhando as funções de secretário, notário, escrivão, copista, na Antiguidade e na Idade Média”, in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2001; observamos que, no que se refere particularmente às suas atribuições no âmbito da escrituração e do cálculo, em matéria de registo dos movimentos e das transacções financeiras, podem ser considerados precursores dos actuais contabilistas;


(6) faraó: “título dado aos antigos soberanos ou reis do Egipto”, in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2001; faraó Neferirkaré: “ou Neferirkaré kakai, cujo nome de nascença é kakai e nome monárquico Neferirkaré (Nefer-ir-ka-ré=lindo é o espírito do deus Sol), foi o 3º rei da 5ª dinastia, do período Império Antigo, e reinou entre 2477-2467 (?) antes de Cristo”; faraó Tutmósis III: “foi o 5º rei da 18ª dinastia, do período Império Novo, e reinou entre 1479-1425 (?) antes de Cristo, sendo frequentemente apontado como sendo o mais importante faraó do antigo Egipto”, in http://nationalgeographic.com/encyclopedia (Encyclopedia Britannica Concise) e http://geocities.com (cronologia do antigo Egipto);


(7) helenístico: “relativo à cultura grega antiga uma vez refundida com elementos de outras culturas orientais”; período helenístico: “período que decorre entre a conquista do Oriente por Alexandre Magno e a conquista da Grécia pelos romanos”, in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2001; “no mediterrâneo oriental e médio oriente, período que decorre entre a morte de Alexandre o Grande (323 antes de Cristo) e a conquista do Egipto por Roma (30 antes de Cristo), in http://nationalgeographic.com/encyclopedia (Encyclopedia Britannica Concise); “período de aproximadamente 300 anos que vai do reinado de Alexandre de Macedónia (336-323 antes de Cristo) até a conquista do Egipto por Roma em 30 antes de Cristo”;


(8) letra de câmbio: “documento cambial que consiste numa ordem de pagamento a um terceiro entre dois intervenientes”, in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2001;


(9) numeração romana: “que expressa os números por meio de 7 letras do alfabeto latino” (I, V, X, L, C, D, M), in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2001;


(10) ábaco: “caixa ou moldura, geralmente de madeira, com arames paralelos em que correm esferas ou argolas que são manejadas para efectuar cálculos aritméticos simples”, in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2001;


(11) bárbaros: “os povos que invadiram o Império Romano do Ocidente”; “para os gregos, qualquer estrangeiro; para os romanos quem não falava grego nem latim”; “considerado selvagem, pouco evoluído, sem civilização, sem cultura”, in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2001;


(12) imprensa: “técnica de impressão, considerada uma invenção de Gutemberg, que teve origem no séc. XV”, in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2001;


(13) Antiguidade Oriental: “a história dos povos do Oriente (v.g. sumerianos, babilónios, persas, egípcios, etc.) que decorreu nesse espaço de tempo”, in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2001;


(14) Antiguidade Clássica: “a história da Grécia e de Roma Antigas”, in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2001;


(15) Idade Média: “período compreendido entre o ano de 476, em que se deu a queda do Império Romano do Ocidente, e o ano de 1453, ano da tomada de Constantinopla pelos turcos”, in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2001;


(16) revolução industrial: “mudança ocorrida na indústria no decurso do séc. XVIII, caracterizada pelo surgimento de inovações tecnológicas, que permitiram uma gradual industrialização, o aparecimento de grandes fábricas, com consequentes alterações políticas, económicas, sociais e culturais”, in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2001.


(17) eurocentrismo: “démarche histórica que repousa sobre os princípios do “Modelo Ariano”, presente em 99% das obras científicas que tratam da história da humanidade, no Ocidente… Faz da Europa, sobretudo da Grécia antiga, o berço das disciplinas científicas e filosóficas da humanidade. Tudo o que foi feito pelos outros povos na história da humanidade não conta!...”, vide Afrocentricité vs Eurocentricité, por Jean-Philippe Omotunde, publicado no dia 2-Fev-2006, in http://www.africamaat.com;


(18) africanista: “que é relativo a tudo o que é de África; que se dedica ao estudo da realidade africana, aos seus problemas; pessoa que se dedica ao estudo da realidade africana; especialista das línguas e civilizações africanas; pessoa que se dedica à exploração de regiões africanas; pessoa que tem negócios ou interesses em África; in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2001;


(19) afrocentrismo: “modelo que parte do pressuposto do absurdo do “Modelo Ariano” eurocentrista e que pretende demonstrar que, tal como a origem do Homem moderno se situa em África, também as primeiras reflexões filosóficas ou matemáticas terão sido em África, fixando-se no Antigo Egipto. Nessa base, os afrocentristas lutam por uma renascença africana que faça desenvolver nos africanos e na diáspora africana o orgulho na sua raça e na contribuição dos africanos para a história da humanidade”; Baseado em vários textos, nomeadamente no artigo Afrocentricité vs Eurocentricité, por Jean-Philippe Omotunde, publicado no dia 2-Fev-2006, in http://www.africamaat.com;


(20) gado: “Do lat. pecus, donde deriva a palavra pecúnia: moeda, dinheiro. O homem cria gado desde há 100.000 anos e só agriculta há 12.000 anos”; consultar pecuária e consultar agricultura, in Wikipédia – A enciclopédia livre, http://pt.wikipedia.org;


(21) Abusir: “necrópole situada na ribeira ocidental do rio Nilo na região de Mênfis”, in Wikipedia - la enciclopedia libre.




GALERIA DE IMAGENS:


Escrita cuneiforme dos Sumérios e Babilónicos




OBSERVAÇÃO: A invenção da escrita cuneiforme (escrita feita com auxílio de objectos em forma de cunha) ficou a dever-se às necessidades de administração dos palácios e dos templos (cobrança de impostos, registro de cabeças de gado, medidas de cereal, etc.)
In Wikipédia, Escrita, tipos de escrita, escrita cuneiforme, http://pt.wikipedia.org/




Escriba: «Contabilista» egípcio

























SCRIBE EGYPTIEN



Papiro de Contabilidade: Demonstração financeira da época





















PAPYRUS DE COMPTABILITE BOULAQ 18.
N.B. LES CERCLES INDIQUENT LA MENTION DU "ZERO".






Tradução da conta de exploração por produtos




















TRADUCTION DU PAPYRUS BOULAQ 18





Outra tradução, parcial, da mesma conta de exploração


















TRADUCTION DU DICTIONNAIRE "GARDINER"



Luca Pacioli:O «pai» da contabilidade por partidas dobradas
























LUCA PACIOLI




Reedição da obra Luca Pacioli: Tratado das contas e das escrituras














OUVRAGE REEDITE DE LUCA PACIOLI

domingo, 23 de novembro de 2008

Símbolos da Contabilidade






CADUCEU DE MERCÚRIO












ASAS: Símbolo da diligência, ou seja, a presteza, a solicitude, a dedicação e o cuidado ao exercer a profissão.

ELMO: Peça de armadura antiga que protegia a cabeça. Significa a protecção aos pensamentos baixos que leva a acções desonestas.

BASTÃO: Simboliza o poder de quem conhece a Ciência Contábil, que tem por objecto o património de quaisquer entidades.

SERPENTES: Simbolizam a sabedoria, isto é, o quanto se deve estudar antes de agir, para escolher o caminho correcto e ao mesmo tempo mais vantajoso para o cliente.











ANEL










PEDRA: Turmalina Rosa Clara, ladeada de Diamantes.

ARO: De um lado, o Caduceu de Mercúrio, que é a insígnia do Deus do Comércio (bastão que representa o poder, com duas Serpentes entrelaçadas, simbolizando a sabedoria; e o capacete com duas Asas que representam Actividade e Diligência); do outro, as Tábuas da Lei, com a legenda "LEX".













PADROEIRO DOS CONTABILISTAS





SÃO MATEUS

São Mateus foi um contabilista. Actuava na área da Contabilidade Pública, pois era um rendeiro, isto é, um arrendatário de tributos. O exercício da sua profissão exigia rígidos controlos, os quais se reflectiam na formulação do documentário contábil, sua exibição e sua revelação. Escriturava e auditava.

Fonte: Textos extraídos dos sites do CFC e do CRCRS